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Porque é que tantas crianças deixam de praticar desporto?

Quando comecei este projeto, houve uma pergunta que me apareceu logo quase de forma automática: o que faz uma criança apaixonar-se por um desporto? E, do outro lado da mesma questão, o que a faz deixar de o praticar?

Para mim, essa é a pergunta essencial.

Muitas crianças começam cheias de energia. Vão com vontade, curiosidade e brilho nos olhos. Mas passado algum tempo, esse entusiasmo desaparece. E não estamos a falar de casos raros. Num grande estudo australiano, quase 3 em cada 10 crianças que praticavam desporto aos 10 anos já tinham deixado aos 12. (PubMed)

Isto devia fazer-nos parar e pensar: o que é que está a acontecer pelo caminho?

As crianças não entram no desporto só para “treinar”

Quando se pergunta às crianças porque gostam de praticar desporto, as respostas são surpreendentemente simples: porque é divertido, porque gostam de estar com amigos, porque sentem que estão a melhorar e porque gostam do desafio. A investigação tem mostrado isto de forma muito consistente. “Diversão” aparece vezes sem conta como razão principal para entrar, e também para ficar. (PMC)

Mas aqui há um detalhe importante: diversão não é falta de seriedade.

Para uma criança, divertir-se pode ser sentir que consegue, que aprende, que pertence àquele grupo e que quer voltar amanhã. É uma experiência viva. Não é apenas “passar o tempo”.

O problema muitas vezes não é o desporto

Uma revisão sistemática muito citada sobre abandono desportivo em crianças e jovens encontrou um padrão claro: as razões mais frequentes para desistir são deixar de achar piada, sentir que não se é capaz, viver demasiada pressão social, ter conflitos com horários e escola, ou lidar com fadiga e lesões. (Sage Journals)

O ponto mais forte, para mim, é este: muitas crianças não deixam o desporto porque o desporto seja mau. Deixam a experiência que lhes foi dada desse desporto.

Isto muda tudo.

Porque se o ambiente é pesado, se o erro traz vergonha, se só alguns contam, se tudo gira demasiado cedo à volta de resultados, então até uma atividade bonita pode perder o encanto.

O que podemos aprender com isto

Há países que levaram este tema a sério. Na Noruega, o desporto infantil é enquadrado até ao ano em que a criança faz 12 anos, com direitos centrados em participação, segurança e alegria. Essas orientações estão assumidamente ligadas à Convenção dos Direitos da Criança. Não é um detalhe. É uma escolha de cultura. (idrettsforbundet.no)

Isto ajuda-nos a perceber uma coisa simples: o ambiente não é um extra. É parte da aprendizagem.

Uma criança aprende melhor quando se sente segura, envolvida e desafiada ao seu nível. Quando pode tentar, falhar, ajustar e continuar. Quando sente que há espaço para ela.

E no ténis?

O ténis tem tudo para ficar na vida de uma criança durante muitos anos. Pode ser jogado de muitas formas, em muitos contextos, com níveis diferentes, com amigos, em família, em pares ou sozinho.

Mas para isso, o primeiro contacto tem de ser bom.

Se o ténis aparecer demasiado cedo como obrigação, correção constante e pressão para acertar, há o risco de a criança sair antes de descobrir o que o jogo tem de especial.

No fundo, não basta ensinar ténis. É preciso cuidar da forma como a criança vive o ténis.

Quando a experiência é boa, a aprendizagem cresce. Quando a experiência pesa, até o talento se afasta.

Conclusão

Se queremos que mais crianças fiquem no desporto, talvez a pergunta principal não seja “como puxamos mais por elas?”.

Talvez seja esta:

que tipo de experiência estamos a criar para que elas queiram voltar?


Referências

  • Vella, S. A. et al. (2020). Prevalence of Drop-Out From Organised Extracurricular Sports and Associations With Body Fat Percentage During Childhood and Adolescence. PubMed. (PubMed)
  • Crane, J., & Temple, V. (2015). A systematic review of dropout from organized sport among children and youth. European Physical Education Review. (Sage Journals)
  • Balish, S. M. et al. (2014). Correlates of youth sport attrition: A review and future directions. (Dalhousie University)
  • Visek, A. J. et al. (2015). The Fun Integration Theory: Toward Sustaining Children and Adolescents Sport Participation. (PMC)
  • Visek, A. J. et al. (2020). Toward Understanding Youth Athletes’ Fun Priorities. (PMC)
  • Norwegian Olympic and Paralympic Committee and Confederation of Sports. Children’s rights, provisions and safeguarding in sports. (idrettsforbundet.no)

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