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Aprender a jogar, jogando

Enquanto jogador, tive algumas aulas formais de ténis. Foram importantes no meu caminho. Mas, se penso honestamente sobre onde mais evoluí, a resposta é outra.

Foi a jogar.

Foi a jogar com pessoas diferentes. Com estilos diferentes. Com ritmos, bolas e desafios diferentes. Foi aí que senti o meu ténis crescer mais: quando precisava de encontrar soluções, adaptar-me, experimentar formas de ganhar pontos e lidar com o que o jogo me trazia.

Ao longo dos anos, encontrei muitos jogadores muito bons com um percurso parecido. Não eram jogadores “sem base”. Eram jogadores que tinham aprendido muito em contexto real, no contacto com problemas reais do jogo.

E isso deixou-me uma pergunta durante muito tempo:

Porque é que tanta aprendizagem importante aparece precisamente quando estamos mesmo a jogar?

Quando me tornei treinador, comecei a perceber melhor

Mais tarde, já como treinador, fui à procura de respostas. Foi aí que encontrei ideias como a ecologia dinâmica e o desenho representativo. Os nomes podem parecer técnicos, mas a ideia principal é simples: aprendemos melhor quando o contexto de prática se parece com aquilo que depois vamos realmente viver. No ténis, isso significa que o jogo não é apenas o lugar onde mostramos o que sabemos. Muitas vezes, é o lugar onde aprendemos. (ScienceDirect)

De repente, muita coisa fez sentido para mim.

Aquele ambiente em que cresci, com muito jogo, muitos adversários, muitas diferenças e muitos ajustes, tinha sido, no fundo, um excelente espaço de aprendizagem. Não porque fosse perfeito. Mas porque me obrigava a estar atento, a decidir, a adaptar-me e a encontrar respostas.

A técnica foi crescendo dentro dessas experiências. Não veio primeiro, isolada do resto. Foi nascendo com o jogo.

É por isso que esta é a minha abordagem

Hoje, acredito profundamente no valor de pôr os jogadores, e sobretudo as crianças, em situações de jogo e em desafios adaptados ao que vão realmente encontrar.

Acredito nisso porque o jogo traz coisas que mais nada traz da mesma forma: intenção, atenção, decisão, emoção, timing, adaptação.

Quando uma criança joga, não está apenas a “bater bolas”. Está a aprender a ler o que se passa, a ajustar o corpo, a perceber o espaço, a ganhar confiança e a resolver problemas. E tudo isso faz parte do ténis.

Aprender a jogar não é só repetir movimentos. É aprender a responder ao que o jogo pede.

A investigação nesta área vai precisamente nesse sentido: práticas mais representativas, mais próximas da realidade do jogo, ajudam a desenvolver comportamentos mais úteis para a competição e para a adaptação. (ScienceDirect)

O que é que isto nos ajuda a perceber sobre crianças?

Ajuda-nos a perceber que muitas crianças aprendem melhor quando aquilo que fazem tem sentido para elas.

Quando há desafio. Quando há descoberta. Quando há prazer. Quando sentem que estão realmente envolvidas no que está a acontecer.

Isto não significa deixar tudo ao acaso. Significa criar ambientes ricos, ajustados e vivos, onde a criança possa explorar e crescer dentro do jogo.

E isso, para mim, é muito importante. Porque o que eu quero não é apenas que a criança “faça bem” um exercício. Quero que ela ganhe relação com o jogo, que perceba o que está a fazer, que se sinta capaz e que descubra gosto em jogar.

Conclusão

Quanto mais penso no meu percurso, mais claro isto se torna:

foi no jogo que aprendi grande parte daquilo que realmente ficou comigo.

É por isso que acredito tanto numa aprendizagem com jogo, com contexto, com desafios reais e adaptados.

Porque, muitas vezes, é aí que o ténis deixa de ser apenas uma sequência de instruções e passa a ser aquilo que pode ser desde o início:

uma experiência viva, inteligente e cheia de sentido.

Referências

  • Krause, L. et al. (2019). Application of representative learning design for assessment of common practice tasks in tennis. Psychology of Sport and Exercise. (ScienceDirect)
  • Renshaw, I. et al. (2022). An ecological dynamics approach to motor learning in practice. Asia-Pacific Journal of Sports Medicine, Arthroscopy, Rehabilitation and Technology. (ScienceDirect)
  • Chow, J. Y. et al. (2023). Advice from “pracademics” of how to apply ecological dynamics theory to practice design. Frontiers in Sports and Active Living. ([Frontiers][3])

[3]: https://www.frontiersin.org/journals/sports-and-active-living/articles/10.3389/fspor.2023.1192332/full “Advice from “pracademics” of how to apply ecological …”

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