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Quando os desportos individuais conseguem ser mais coletivos do que os desportos de equipa

Em pequeno, muitas vezes era visto como descoordenado.

Sempre gostei de futebol. Gostava mesmo. Ia com vontade, queria jogar, queria fazer parte. Mas raramente me sentia verdadeiramente bem dentro daquele contexto. Havia quase sempre a sensação de que os outros eram melhores, mais naturais, mais soltos. Eu ficava um pouco atrás.

E quando uma criança sente isso, sente muitas coisas ao mesmo tempo.

Sente que joga menos. Sente que falha mais. Sente que, quando entra, pode estragar. Sente que os colegas confiam mais nuns do que noutros. Mesmo que ninguém diga nada de forma cruel, há coisas que se sentem na mesma.

Às vezes, o mais difícil para uma criança não é perder. É sentir que está a mais.

Durante muito tempo, foi isso que senti em vários momentos do desporto de equipa. Não deixei de gostar. Não saí de lá a pensar mal do futebol, muito pelo contrário. O futebol deu-me coisas boas. Deu-me movimento, momentos felizes, ligação aos outros, gosto pelo jogo. Mas também me fez perceber uma coisa importante: não é fácil incluir toda a gente da mesma forma num desporto de equipa, mesmo quando há boa vontade.

E isso não acontece porque alguém seja mau, porque os colegas sejam egoístas ou porque os treinadores não se importem. Muitas vezes acontece porque o próprio desporto, pela forma como funciona, expõe mais as diferenças.

Há quem jogue mais. Há quem toque mais na bola. Há quem resolva. Há quem complique. Há quem ajude a equipa a ganhar. E há quem sinta que a equipa fica mais fraca quando está em campo.

Isto, em crianças, pesa muito.

O que esta experiência me fez perceber

Mais tarde, encontrei no ténis um lugar diferente.

Talvez precisamente por ser um desporto individual.

No ténis, o que acontece em campo depende de mim. O que corre bem ou mal é meu. O processo também é meu. Isso, para mim, foi muito importante. Deu-me uma sensação de liberdade e de segurança que eu raramente tinha sentido noutros contextos.

Mas o mais curioso é que foi no ténis, um desporto que tantas vezes se vê como individual, que senti algumas das formas mais bonitas de coletivo.

Senti pessoas a torcer por mim. Senti apoio sem comparação constante. Senti que podia evoluir ao meu ritmo. E, quando jogava pares, sentia algo ainda mais especial: estávamos ali porque queríamos jogar juntos. Quando um estava pior, o outro ajudava. Quando um falhava, o outro tentava puxar para cima.

Percebi que um desporto pode ser individual no jogo e, ainda assim, profundamente coletivo na forma como é vivido.

Foi isso que esta experiência me foi mostrando ao longo do tempo.

Incluir não é só deixar participar

Uma das coisas em que mais penso hoje é nisto: há uma diferença grande entre uma criança estar presente e uma criança sentir que pertence.

Nos desportos de equipa, isso é mais difícil de garantir. Não é impossível. Há equipas extraordinárias, treinadores extraordinários e ambientes muito saudáveis. Mas exige muito. Exige intenção. Exige sensibilidade. Exige saber olhar para a criança que joga menos, para a criança que falha, para a criança que começa a esconder-se dentro do jogo.

Porque num desporto de equipa, quase tudo é visível.

Quem joga mais e quem joga menos. Quem decide e quem acompanha. Quem falhou no lance. Quem “complicou” o jogo. Quem está a puxar a equipa para cima e quem parece puxá-la para baixo.

Mesmo quando os adultos tentam proteger, há uma pressão que nasce naturalmente dali. Às vezes vem de fora. Dos pais. Das expectativas. Das comparações. Às vezes vem do próprio grupo. E às vezes nasce dentro da própria criança, que começa a perceber muito cedo o lugar que ocupa.

No ténis, esse tipo de exposição é diferente. Continua a haver frustração, erro, desafio e comparação. Mas parece-me mais fácil construir um caminho em que a criança se sente responsável pelo seu processo sem se sentir um peso para os outros.

E isso, para crescer, vale muito.

O que isto me faz pensar sobre crianças e desporto

Hoje, quando penso no desporto para crianças, penso menos em qual é o desporto “melhor” e mais em que tipo de experiência aquele desporto está a oferecer.

Há crianças que adoram o lado coletivo e florescem nele. Há crianças que gostam do jogo partilhado, da energia do grupo, da ideia de equipa. E isso é maravilhoso.

Mas também há crianças que precisam de outro tipo de espaço. Um espaço onde possam errar sem sentirem que prejudicaram toda a gente. Um espaço onde consigam ganhar confiança sem estar sempre tão expostas. Um espaço onde possam construir relação com os outros sem que essa relação dependa tanto de rendimento, posição, tempo de jogo ou comparação.

Nem todas as crianças precisam do mesmo ambiente para crescer bem no desporto.

Foi isso que a minha experiência me ensinou.

E talvez por isso eu acredite tanto que o ténis, quando vivido de forma saudável, pode ser um lugar muito bonito para uma criança crescer. Não apenas porque aprende a jogar. Mas porque pode aprender a confiar em si, a lidar com o erro, a apoiar os outros e a sentir-se parte de alguma coisa boa.

No fundo, é isto

O que esta experiência me deixou não foi uma crítica aos desportos de equipa. Foi uma maior consciência sobre a forma como as crianças vivem o desporto por dentro.

Às vezes, um desporto de equipa pode ser difícil de tornar verdadeiramente inclusivo. E às vezes, um desporto individual consegue criar um sentimento de pertença, apoio e coletivo ainda mais forte do que aquilo que se imaginava.

No fim, o mais importante talvez não seja se o desporto é individual ou coletivo. É se a criança sente que aquele lugar também é para ela.

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