Um estudo que nos obriga a pensar
Quando vi este estudo do Project Play, do Aspen Institute, houve uma ideia que ficou logo a ecoar:
O comportamento dos adultos pode aproximar uma criança do desporto ou afastá-la.
Isto não deve ser lido como uma acusação aos pais. Muito pelo contrário. A maior parte dos pais quer o melhor para os filhos. Quer vê-los felizes, confiantes, ativos, capazes de aprender e crescer.
Mas este estudo ajuda-nos a olhar para uma pergunta importante:
O que é que faz uma criança querer continuar a praticar desporto?
E, talvez ainda mais importante:
O que é que a pode fazer desistir?
O que o estudo encontrou
O estudo ouviu jovens entre os 10 e os 17 anos sobre a sua experiência no desporto: crianças que ainda praticam, crianças que já desistiram e crianças que nunca praticaram desporto organizado.
Uma das conclusões mais fortes foi esta:
O comportamento dos pais é um forte indicador de continuidade ou abandono no desporto.
Os jovens que tinham desistido relatavam mais experiências de pressão negativa por parte dos adultos.
Por exemplo, entre os jovens que já tinham deixado o desporto:
- 21% disseram que eram pressionados a jogar quando não queriam, contra 9% dos jovens que ainda praticam.
- 18% disseram que eram comparados com outros jogadores, contra 13% dos jovens que continuam.
- 16% disseram que os pais criticavam as suas capacidades, contra 11% dos jovens que ainda praticam.
Mas o estudo mostra também o outro lado. Não fala apenas de pressão. Fala também de presença, apoio e envolvimento positivo.
Entre os jovens que ainda praticam desporto, 86% disseram que os pais iam aos jogos ou treinos. Entre os jovens que desistiram, esse número era de 58%. Project Play
Isto é muito importante.
Porque não estamos a falar de pais perfeitos. Estamos a falar de crianças que sentem que alguém está lá. Que alguém se importa. Que alguém apoia sem transformar cada jogo num exame.
O problema não é querer que a criança melhore
É natural querer que uma criança aprenda, evolua e se esforce.
O problema começa quando o desporto deixa de ser um lugar de descoberta e passa a ser um lugar de medo: medo de falhar, medo de desiludir, medo de não ser suficientemente bom.
No ténis, isto pode acontecer facilmente. É um desporto onde o erro é muito visível. A bola vai para fora. A bola vai à rede. O ponto acaba. A criança sabe logo que falhou.
Por isso, o ambiente à volta importa muito.
Uma criança pode perder um ponto e pensar:
“Vou tentar outra vez.”
Ou pode perder um ponto e pensar:
“Não sou bom nisto.”
A diferença, muitas vezes, está na forma como os adultos reagem.
O que as crianças procuram no desporto
Outro ponto muito bonito do estudo é que as principais razões para as crianças praticarem desporto continuam a ser simples: divertir-se, estar com amigos, sentir-se bem, aprender e participar.
Não começa por bolsas, rankings, troféus ou carreiras profissionais.
Começa por algo muito mais humano:
gostar de estar ali.
E isto devia fazer-nos pensar.
Se queremos que mais crianças continuem no ténis, talvez a primeira pergunta não deva ser: “Como é que fazemos campeões?”
Talvez deva ser:
Como é que criamos experiências às quais as crianças querem voltar?
O que isto significa para pais e educadores
Este estudo não nos diz que os pais devem afastar-se. Pelo contrário. Mostra que o apoio dos pais é muito importante.
Mas há uma diferença grande entre apoiar e pressionar.
Apoiar pode ser perguntar:
“Divertiste-te?” “O que descobriste hoje?” “Houve alguma coisa que te deixou orgulhoso?” “Queres voltar a tentar?”
Pressionar é transformar cada treino, jogo ou atividade numa avaliação.
E as crianças sentem essa diferença.
No Planeta Ténis, esta ideia é central: o ténis pode ser um lugar onde a criança se sente segura para experimentar, errar, brincar, aprender e voltar a tentar.
Não porque ninguém se importa. Mas porque os adultos se importam da forma certa.
O que podemos levar daqui
Este estudo reforça uma ideia simples, mas muito importante:
As crianças não ficam no desporto apenas porque aprendem técnica. Ficam porque encontram um lugar onde se sentem bem.
Sentem-se apoiadas.
Sentem-se capazes.
Sentem que podem errar.
Sentem que pertencem.
Sentem vontade de voltar.
E talvez seja esse o maior desafio para todos nós: pais, treinadores, educadores e comunidade.
Não tornar o desporto mais pesado do que precisa de ser.
Porque, quando uma criança associa o desporto a alegria, confiança e descoberta, não ganha apenas mais uma atividade.
Pode ganhar uma relação saudável com o movimento para a vida.