Há uma ideia que me acompanha desde que comecei a pensar o Planeta Ténis: o mais importante na infância não é fechar cedo numa modalidade. É abrir portas ao movimento, ao jogo e ao prazer de fazer desporto.
Foi precisamente daí que nasceu grande parte da forma como vejo este projeto.
Quando pensamos em crianças, é fácil cair na tentação de achar que, se gostam de ténis, então devem fazer cada vez mais ténis, cada vez mais cedo, cada vez mais a sério. Mas a minha experiência e a reflexão que fui fazendo levam-me noutra direção: a infância ganha muito quando há variedade.
E isso não afasta o ténis. Pelo contrário. Muitas vezes, é isso que o fortalece.
Crescer bem primeiro, especializar depois
Na infância, o corpo e a cabeça estão a descobrir o mundo. Correr, saltar, travar, mudar de direção, equilibrar-se, lançar, apanhar, reagir, improvisar. Tudo isto conta. Tudo isto constrói base.
Quando uma criança pratica mais do que um desporto, ou simplesmente vive experiências motoras diferentes, ganha repertório. Fica mais rica em movimento. Aprende a adaptar-se melhor. E isso tem valor não só para a saúde e para o desenvolvimento motor, mas também para a confiança, para a autonomia e para a relação que cria com o próprio desporto. A literatura pediátrica e de medicina do desporto tem vindo a alertar que a participação diversificada, em vez da especialização muito precoce, tende a ser mais adequada para o desenvolvimento global da criança e ajuda a reduzir riscos como sobrecarga, lesões por uso excessivo e saturação emocional. (AAP Publications)
Uma criança não precisa de viver fechada num só desporto para crescer bem dentro dele.
Isto é uma ideia importante. Porque às vezes fala-se de evolução como se ela dependesse apenas de repetir sempre a mesma coisa. Mas na infância, muitas vezes, evoluir passa precisamente por experimentar mais.
Até os grandes campeões nos mostram isso
Gosto de lembrar dois exemplos conhecidos, não porque sejam receitas mágicas, mas porque ajudam a pensar.
Rafael Nadal cresceu num ambiente muito ligado ao desporto e, durante a infância, viveu de perto o futebol, que também fazia parte do seu mundo. Jannik Sinner, antes de se afirmar no ténis, teve um percurso forte no esqui alpino durante a infância. Estes casos não provam tudo por si só, mas mostram uma coisa simples: o caminho até um grande tenista não precisa de ser estreito desde o início. (Encyclopedia Britannica)
O que me interessa aqui não é dizer que todas as crianças devem sonhar ser profissionais. Não é isso. O ponto é outro: se até em percursos de excelência houve espaço para variedade, então faz ainda mais sentido respeitar essa variedade na infância comum, real, normal.
É por isso que o Planeta Ténis é assim
No fundo, muito do que o Planeta Ténis quer ser nasce desta visão.
Queremos um projeto flexível. Queremos um ténis que convive bem com outras atividades. Queremos sessões focadas no jogo, na descoberta, na adaptação e no prazer de estar em campo. Queremos que a criança sinta que o ténis é um espaço onde pode entrar com alegria, e não uma estrada estreita onde tem de escolher demasiado cedo.
O objetivo não é prender a criança ao ténis. É criar uma relação positiva com o desporto.
Se depois o ténis se tornar “o seu” desporto, ótimo. Se vier a ser um entre vários, também é ótimo. Se aquilo que fica for gosto por mexer, jogar, competir de forma saudável, conviver e continuar ativa ao longo da vida, então já aconteceu algo muito valioso.
O que isto nos ajuda a perceber
Ajuda-nos a perceber que o mais importante, na infância, nem sempre é definir cedo. Muitas vezes, é permitir.
Permitir que a criança explore. Que jogue. Que compare sensações. Que descubra o que gosta. Que ganhe ferramentas motoras e emocionais em ambientes diferentes. Que construa uma ligação boa ao desporto antes de construir uma identidade fechada dentro de uma modalidade.
Criar amor pelo desporto vale mais do que exigir fidelidade precoce a um só desporto.
É também por isso que o Planeta Ténis não quer ser um lugar de pressão. Quer ser um lugar de encontro. Um lugar onde o ténis pode entrar na vida de uma criança de forma leve, forte e positiva.
Conclusão
Acredito cada vez mais nisto: quando damos às crianças uma infância rica em movimento, jogo e variedade, não estamos a afastá-las do ténis. Estamos a dar-lhes melhores condições para gostar dele — e para gostar de desporto para a vida.
E, para mim, é exatamente aí que tudo começa.
Referências
- American Academy of Pediatrics. Sports Specialization and Intensive Training in Young Athletes. (AAP Publications)
- American Academy of Pediatrics. Organized Sports for Children, Preadolescents, and Adolescents. (AAP Publications)
- LaPrade RF et al. AOSSM Early Sport Specialization Consensus Statement. (PMC)
- Brenner JS et al. The Psychosocial Implications of Sport Specialization in Pediatric Athletes. (PMC)
- Encyclopaedia Britannica. Rafael Nadal. (Encyclopedia Britannica)
- ATP Tour. Jannik Sinner: Natural-born winner. (ATP Tour)